Liturgia da Sexta-Feira Santa 2008

“A Sexta-Feira Santa, que comemora os eventos que vão da condenação à morte até à crucifixão de Cristo, é um dia de penitência, de jejum e de oração, de participação na Paixão do Senhor. Na hora estabelecida, a Assembleia cristã repercorre, com a ajuda da Palavra de Deus e dos gestos litúrgicos, a história da infidelidade humana ao desígnio divino, que contudo se realiza precisamente assim, e ouve de novo a narração comovedora da Paixão dolorosa do Senhor. Dirige depois ao Pai celeste a longa "oração dos fiéis", que inclui todas as necessidades da Igreja e do mundo. Em seguida, a Comunidade adora a Cruz e aproxima-se da Eucaristia, consumando as espécies sagradas conservadas da Missa in Cena Domini do dia anterior” (Bento XVI).


UM EXPRESSIVO INÍCIO

• Altar inteiramente desnudado, sem cruz, nem candelabros, sem toalhas. Paramentos vermelhos. Cruz coberta com um pano ao fundo da Igreja juntamente com dois círios.

• Quando celebrante e ministros estiverem prontos para a entrada em silêncio, o Monitor diz:

“Profundo silêncio, para anunciar, invocar, adorar e comungar a Paixão e Morte do Senhor. A celebração da Paixão tem hoje um expressivo início, com uma procissão em silêncio e um gesto de prostração”

• Procissão de entrada: Os ministros entram em silêncio.

• Prostração: Ao chegar junto do altar o presidente prostra-se ou ajoelha-se. E todos oram em silêncio.

• Oração Colecta (sem dizer “Oremos”)

I. LITURGIA DA PALAVRA: A PAIXÃO E MORTE NA CRUZ ANUNCIADA

• 1ª leitura; Salmo; 2ª leitura; Aclamação ao Evangelho

• Monição antes do Evangelho.


“Depois de termos escutado a Palavra de Deus que nos descrevia a figura do Servo e tendo-o identificado com Jesus, escutemos agora leitura da Paixão segundo S. João. Anunciamos a morte do Senhor! Este é um dos momentos altos da nossa Celebração”.

• Proclamação do Evangelho de São João (sem velas, nem incenso, nem saudação nem signação do livro)


Homilia na SEXTA-FEIRA SANTA 2008

No princípio (Jo.18,1) e no fim (Jo.19,41), está um belo Jardim, como cenário de esperança, deste obscuro drama da Paixão de Cristo!

1. A abrir, descrevendo-nos, no primeiro acto, a prisão livre de Jesus, o evangelista diz-nos que “Jesus saiu para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um jardim, e ali entrou com os discípulos” (Jo.18,1). A torrente do Cédron corre no vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus foi preso. Curiosamente, só este evangelista nos diz tratar-se de um jardim! E, deste modo, parece reconduzir-nos, intencionalmente, desde o princípio, ao jardim do Éden, ao Jardim da primeira Criação. O homem, prisioneiro do pecado, e expulso do paraíso, encontra agora na morte de Cristo o terreno fértil da sua salvação!

2. A fechar o longo drama da Paixão, com a sepultura de Jesus, o quarto evangelho planta, de novo, o nosso olhar na beleza de um jardim! Com efeito, diz-nos o evangelista: “No sítio em que Jesus tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado” (Jo.19,41).

A terra destruída e lacerada pelo pecado, onde é sepultado o corpo de Jesus, transforma-se naquilo para que foi criada, em jardim… nesse preciso jardim, donde outrora fora expulso o velho Adão, ao escapar-se ao amor do seu Criador. Dito por outras palavras, o Corpo do Senhor, expulso para fora deste mundo, é sepultado num jardim, lugar onde os nossos primeiros pais foram expulsos e arrastados para o abismo da solidão. Nesse mesmo lugar onde, do Éden, nascia um rio, para o irrigar (Gén. 2,10), está agora sepultada a “fonte de água viva”, que aplaca a nossa sede de amor e vida para sempre.

Jesus sepultado na Terra, parece ir ao encontro do velho Adão e dizer-lhe: “o inimigo afastou-te da terra do paraíso. Eu, porém, não te coloco no paraíso, mas no trono celeste”. Com a sua morte e sepultura no Jardim, Jesus desce ao abismo da solidão onde se encontra o velho Adão. Toma-o pela mão, põe-no aos ombros, como o pastor à ovelha perdida, e leva todos os homens em expectativa para a luz, como se lhe dissesse: “Foste afastado da árvore, símbolo da vida. Mas Eu que sou a Vida, estou agora junto de ti”.

3. Irmãos caríssimos: o túmulo novo escavado no jardim faz-nos saber que o domínio da morte está a terminar! “A morte é apenas o lado visível da sua invisível ressurreição gloriosa” (J. Cunha). Assim, sobre a hora do grande luto, da grande escuridão e do desespero, aparece, na imagem do jardim, e misteriosamente, esta luz da esperança na ressurreição, na vida nova, no Homem novo, capaz de transformar a terra árida, seca e infértil, da sua vida e da vida do mundo, num jardim de vida e de Paz para sempre!

II- PAIXÃO E MORTE NA CRUZ INVOCADA: ORAÇÃO UNIVERSAL

• Monição à Oração Universal (depois da homilia):

Monitor: “Da Paixão e Morte na Cruz anunciada, passamos agora à Paixão e Morte na Cruz Invocada. Hoje a nossa Oração Universal é universal como nunca. Recolhida da mais antiga tradição da Igreja faz eco das mais diversas necessidades e nela os cristãos, exercendo a sua missão sacerdotal, intercedem por todos os homens, confiados nos méritos da Cruz de Cristo. Depois do convite feito à Oração pelo Leitor, ajoelhamo-nos em silêncio. Concluído o momento de silêncio, acompanhamos, na posição de pé, a Oração conclusiva do Presidente.”

• Preces

• Alterar Oração VI. Pelos judeus

Leitor: Oremos pelos judeus, para que Deus, Nosso Senhor, ilumine os seus corações, a fim de que reconheçam Jesus Cristo, Salvador de todos os homens!

Oração em silêncio. Depois o sacerdote, diz:

P- Deus eterno e omnipotente: Vós que quereis que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, concedei propício que, entrando a plenitude dos povos na vossa Igreja, todo o Israel seja salvo. Por Cristo, Nosso Senhor! Ámen.



• Alterar «Oração X»

Leitor:

1. Oremos irmãos a Deus Pai, todo-poderoso, para que liberte o mundo de toda a falsidade, da fome e da miséria.

2. Oremos por todos os que sofrem os horrores da guerra, da crueldade, das ditaduras, de toda a violência.

3. Oremos também pelos perseguidos e encarcerados e pelos que são tratados injustamente pelos Homens.

4. Oremos por todas as famílias que se encontram em situações difíceis, pelos desempregados e pelos pobres.

5. Oremos ainda pelos emigrantes, exilados, pelos sós, doentes, drogados, vítimas da Sida, moribundos e pelos que sofrem. ~

6. Oremos por todas as crianças do mundo, pelas crianças sem infância e sem sorriso, às quais nunca se cumpre nenhum desejo; pelas crianças que sofrem maus-tratos; pelas que só comem de vez em quando; pelas que têm a sua família desfeita e vivem na rua.

7. Oremos também pelos jovens: pelos pedem nas esquinas e nos passeios; pelos que percorrem a sua via-sacra pelo caminho do desespero à procura da droga; pelos rapazes e raparigas que se prostituem.

8. Oremos também pelos adultos: pelos que passam anos e anos sem emprego ou são prematuramente reformados; pelos que perderam a esperança e se entregaram ao álcool; pelos que escondem a cabeça para pedir. Pelos casamentos desfeitos. Pelas mães que choram, quando em casa falta o mínimo necessário.

9. Oremos também pelos idosos: pelos que recolhem as sobras nos contentores e mercados; pelos que não têm com que pagar a água e a luz; pelos que terminam os seus dias sozinhos, sem a atenção de ninguém.
(Silêncio)
Presidente: Deus todo-poderoso e eterno, consolo dos aflitos, força e esperança para todos. Escutai a nossa Oração pelos que sofrem e concedei-lhes a graça da vossa misericórdia. PNSJ

• Acrescentar «Oração XI»:

Leitor: Oremos finalmente por nós. Para que a celebração da Páscoa do Senhor, da sua passagem da morte para a Vida, signifique para todos um crescimento na nossa vida cristã e nos conduza à prática do amor (silêncio)

Presidente: Deus todo-poderoso e eterno, fazei que nos abramos ao vosso amor. Fazei que vivamos cada vez mais como irmãos uns dos outros, como vosso Filho nos ensinou, a fim de que continue o seu caminho em nosso mundo. Por NSJC.

III. PAIXÃO E MORTE NA CRUZ ADORADA: ADORAÇÃO DA CRUZ

• Adoração da Cruz. Opta-se pela segunda fórmula (adaptada): ir ao fundo da Igreja, acompanhado de ministros e aí receber a Cruz descoberta. Os ministros tomam velas acesas. Encaminha-se a procissão e o convite é feito à porta, ao centro e à entrada do presbitério da Igreja, com as palavras «Eis o madeiro da Cruz...» Nessa altura todos erguem a sua própria Cruz.

• Antes porém da entrada da Cruz, o Monitor diz:

Monitor: “Do anúncio e da invocação, passamos agora à paixão e morte na cruz adorada. A cruz é hoje o centro da nossa celebração. Elevamos a Cruz vitoriosa do Senhor, para a adorar. Na Cruz, Jesus venceu todo o mal e tudo o que há de morte em nós. Da Cruz brota uma fonte inesgotável de Vida”. O Presidente descobre e eleva a Cruz, diante do nosso olhar. Sempre que Ele nos convidar a adorar a Cruz, levantemos também os nossos jardins de Páscoa, que fomos cultivando ao longo de toda a Quaresma.

• Depois de a Cruz chegar ao presbitério e enquanto o Presidente a beija, o Monitor diz:

“Agora aproximamo-nos da Cruz. Organizamos a procissão como para a comunhão. Na bandeja podemos deixar uma oferta para a conservação dos lugares santos. Façamo-lo de joelhos, se pudermos; mas sempre de maneira reverente e em espírito de adoração. Cada pessoa ou família traz o seu “jardim de Páscoa”, que colocará no lugar destinado, ao lado da Cruz.

• Enquanto dura a Adoração, cantam-se os Impropérios...)


IV. PAIXÃO E MORTE NA CRUZ COMUNGADA: SAGRADA COMUNHÃO

• No fim, prepara-se o altar, estendendo a toalha, o corporal e o missal aberto na parte de Sexta-Feira Santa, «Comunhão».

Monitor: “Neste dia, a Igreja não celebra a Eucaristia. Mas reserva a comunhão, recordando as palavras do Apóstolo: «sempre que comerdes deste pão e beberdes deste vinho anunciareis a morte do Senhor, até que Ele Venha». A Paixão e morte na Cruz, anunciada, invocada e venerada é agora comungada e partilhada”!

O Presidente vai buscar o Santíssimo do lugar da Reposição para o Altar. Todos estão de pé e em silêncio. Dois acólitos de velas acesas, acompanham o santíssimo. Colocam depois as velas junto do altar.

• Oração de despedida (mãos estendidas sobre o Povo)

UMA CELEBRAÇÃO SEM TERMO

• Enquanto o sacerdote se retira em silêncio, com os ministros, o Monitor diz:

“Como comunidade de crentes, vivemos hoje a entrega total de Cristo por nós até à morte e morte de Cruz. Continuemos hoje e amanhã em espírito de oração e de silêncio que tão grande mistério exige. Durante o Sábado santo, a Igreja permanece junto ao túmulo do Senhor, meditando na sua Paixão e morte e, esperando na oração e no jejum a sua Ressurreição. Voltaremos a reunir-nos amanhã pelas 21h00 para Celebrar a Vigília Pascal, cume de todas as celebrações e a maior de todo o ano litúrgico. Até lá fica o dia de sábado, dia do silêncio, sem liturgia. Apenas o silêncio da morte a convidar-nos a uma oração mais intensa”.
NB: Um Ministro Extraordinário da Comunhão terá de levar para a Capela da Santíssimo, que será fechada à chave.


“A porta da morte está fechada,
ninguém dali pode voltar para trás.
Não existe uma chave para esta porta férrea.

Cristo, porém, possui a chave.
A sua Cruz abre de par em par as portas da morte,
as portas irrevogáveis.

Elas agora já não são intransponíveis.
A sua Cruz, a radicalidade do seu amor,
é a chave que abre esta porta.

O amor d'Aquele que, sendo Deus,
se fez homem para poder morrer
este amor tem a força para abrir esta porta.
Este amor é mais forte que a morte!”

(Bento XVI)

Liturgia Dominical | Amaro Gonçalo| 20/03/2008 | 00:30 | Copyright© Varanda dos Reis