V Domingo da Quaresma - Ano A | 9 Março 2008

Neste 5º Domingo da Quaresma, a liturgia garante-nos que o desígnio de Deus é a comunicação de uma vida que ultrapassa definitivamente a vida biológica: é a vida definitiva que supera a morte.

Na
primeira leituraLeitura da Profecia de Ezequiel
Ez 37, 12-14
, Jahwéh oferece ao seu Povo exilado, desesperado e sem futuro (condenado à morte) uma vida nova. Essa vida vem pelo Espírito, que irá recriar o coração do Povo e inseri-lo numa dinâmica de obediência a Deus e de amor aos irmãos.

O
EvangelhoEvangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Jo 11, 1-45
garante-nos que Jesus veio realizar o desígnio de Deus e dar aos homens a vida definitiva. Ser “amigo” de Jesus e aderir à sua proposta (fazendo da vida uma entrega obediente ao Pai e um dom aos irmãos) é entrar na vida definitiva. Os crentes que vivem desse jeito experimentam a morte física; mas não estão mortos: vivem para sempre em Deus.

A
segunda leituraLeitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 8, 8-11
lembra aos cristãos que, no dia do seu Baptismo, optaram por Cristo e pela vida nova que Ele veio oferecer. Convida-os, portanto, a ser coerentes com essa escolha, a fazerem as obras de Deus e a viverem “segundo o Espírito”. (in Dehonianos)


IV Domingo da Quaresma - Ano A | 2 Março 2008

A liturgia de Domingo convida-nos à descoberta do Deus do amor, empenhado em conduzir-nos a uma vida de comunhão com ele. O Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 15, 1-3.11-32) apresenta-nos o Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor lá está, sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia e não na linha da justiça dos homens.A primeira leitura - Leitura do Livro de Josué
(Jos 5, 9a.10-12), a propósito da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, da liberdade e da paz. Essa vida nova do homem renovado, é um dom do Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade.

A segunda leitura
- Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios (2 Cor 5, 17-21) convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas, em quem se manifesta o homem Novo. (in Dehonianos)

LEITURA I Jos 5, 9a.10-12
Tendo entrado na terra prometida,
o povo de Deus celebra a Páscoa

Leitura do Livro de Josué
Naqueles dias,
disse o Senhor a Josué:
«Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto».
Os filhos de Israel acamparam em Gálgala
e celebraram a Páscoa,
no dia catorze do mês, à tarde,
na planície de Jericó.
No dia seguinte à Páscoa,
comeram dos frutos da terra:
pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia.
Quando começaram a comer dos frutos da terra,
no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná.
Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná,
mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 33, 2-7
Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Enaltecei comigo ao Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,
libertou-me de toda a ansiedade.

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,
o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,
salvou-o de todas as angústias.

LEITURA II 2 Cor 5, 17-21
«Por Cristo, Deus reconciliou-nos consigo»

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.
As coisas antigas passaram; tudo foi renovado.
Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio.
Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.
Palavra do Senhor.



ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO

Lc 15, 18
Vou partir, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Refrão


EVANGELHO
Lc 15, 1-3.11-32
«Este teu irmão estava morto e voltou à vida»



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».
Palavra da salvação.

III Domingo da Quaresma - Ano A | 24 Fevereiro 2008

A Palavra de Deus que hoje nos é proposta afirma, essencialmente, que o nosso Deus está sempre presente ao longo da nossa caminhada pela história e que só Ele nos oferece um horizonte de vida eterna, de realização plena, de felicidade perfeita.

A primeira leitura Leitura do Livro do Êxodo
Ex 17, 3-7
mostra como Jahwéh acompanhou a caminhada dos hebreus pelo deserto do Sinai e como, nos momentos de crise, respondeu às necessidades do seu Povo. O quadro revela a pedagogia de Deus e dá-nos a chave para entender a lógica de Deus, manifestada em cada passo da história da salvação.

A segunda leitura Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 5, 1-2.5-8
repete, noutros termos, o ensinamento da primeira: Deus acompanha o seu Povo em marcha pela história; e, apesar do pecado e da infidelidade, insiste em oferecer ao seu Povo – de forma gratuita e incondicional – a salvação.

O Evangelho Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Jo 4, 5-42
também não se afasta desta temática… Garante-nos que, através de Jesus, Deus oferece ao homem a felicidade (não a felicidade ilusória, parcial e falível, mas a vida eterna). Quem acolhe o dom de Deus e aceita Jesus como “o salvador do mundo” torna-se um Homem Novo, que vive do Espírito e que caminha ao encontro da vida plena e definitiva. (in Dehonianos)


II Domingo da Quaresma - Ano A | 17 Fevereiro 2008

No segundo Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projectos, da obediência total e radical aos planos do Pai.

O
Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Mt 17, 1-9
relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projecto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.

Na
primeira leitura - Leitura do Livro do Génesis
Gen 12, 1-4a
apresenta-se a figura de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do crente que percebe o projecto de Deus e o segue de todo o coração.

Na segunda leitura - Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo
2 Tim 1, 8b-10
, há um apelo aos seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e coerente, as testemunhas do projecto de Deus no mundo. Nada – muito menos o medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa responsabilidade. (in Dehonianos)


I Domingo da Quaresma - Ano A | 10 Fevereiro 2008

No início da nossa caminhada quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos à “conversão” – isto é, a recolocar Deus no centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com ele, a escutar as suas propostas, a concretizar no mundo – com fidelidade – os seus projectos.

A
primeira leitura - Leitura do Livro do Génesis
Gen 2, 7-9; 3, 1-7
afirma que Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. Quando escutamos as propostas de Deus, conhecemos a vida e a felicidade; mas, sempre que prescindimos de Deus e nos fechamos em nós próprios, inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte.

A
segunda leitura - Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 5, 12-19
propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus e que vive na obediência aos projectos do Pai. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva.

O Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Mt 4, 1-11
apresenta, de forma mais clara, o exemplo de Jesus. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à margem de Deus e dos seus projectos. A Palavra de Deus garante que, na perspectiva cristã, uma vida que ignora os projectos do Pai e aposta em esquemas de realização pessoal é uma vida perdida e sem sentido; e que toda a tentação de ignorar Deus e as suas propostas é uma tentação diabólica e que o cristão deve, firmemente, rejeitar. (in Dehonianos)


MENSAGEM DA QUARESMA DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA

1. O Santo Padre Bento XVI dirigiu a toda a Igreja a sua Mensagem para esta Quaresma. Compete-me a mim concretizá-la para a Igreja de Lisboa, tendo em conta as suas características, dinamismos e fragilidades, anseios e dificuldades, no contexto das opções prioritárias da nossa acção pastoral.

O desafio global que cada Quaresma nos apresenta é assim enunciado pelo Santo Padre: “A Quaresma oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundar o sentido e o valor da nossa identidade de cristãos, e estimula-nos a redescobrir a misericórdia de Deus, a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irmãos”.

Este desafio com que abre a sua Mensagem completa-o nas palavras com que a encerra: “Que este período se caracterize, portanto, por um esforço pessoal e comunitário de adesão a Cristo para sermos testemunhas do seu amor”.

Este é o objectivo único de toda a acção pastoral orientada para o crescimento da Igreja, Povo do Senhor: converter-nos a Jesus Cristo, segui-l’O como discípulos, abrir-nos ao amor que Ele nos comunica e que conduzirá toda a nossa vida. Esta é a função da “iniciação cristã”, que alarga o horizonte da inteligência e do coração para aderirmos mais radicalmente a Jesus Cristo, à vida que Ele nos oferece, aos caminhos de fidelidade que Ele nos sugere. A nossa Igreja diocesana tem de insistir neste caminho da “iniciação cristã” para todos os baptizados, através da catequese, da Palavra de Deus, da celebração dos sacramentos e sua preparação, de modo particular aqueles que, por serem basilares, a Igreja chama “sacramentos da iniciação cristã”: o Baptismo, a Confirmação, a Eucaristia.

Independentemente dos grupos em que estamos inseridos e dos processos em que participamos, a Quaresma pode ser, para cada cristão, em Igreja, um tempo de aprofundamento deste essencial cristão, para que a Igreja seja, cada vez mais, um Povo de discípulos de Jesus.

Esta caminhada pessoal é feita em Igreja e através dos meios que esta nos oferece. Mas pode e deve ter a verdade e a autenticidade da nossa vida pessoal. Quero indicar a todos, como atitudes fundamentais a aprofundar, a conversão e o cultivo da fé, da esperança e da caridade.

    A Conversão

2. A realidade do pecado tem vindo a ser relativizada na consciência dos cristãos e na cultura que nos envolve, o que diminui o sentido da necessidade e da urgência da conversão. Trata-se de uma ilusão perigosa: não vencer o pecado no nosso coração, impede verdadeiramente que o abramos para novos horizontes do sentido da vida, da felicidade, do amor e da verdade fundamental da nossa relação com Deus: glorificá-l’O e amá-l’O sobre todas as coisas, para podermos rezar com verdade a oração que o Senhor nos ensinou: “seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu”.

O pecado é manifestação da autonomia do homem em relação a Deus, autonomia da nossa vontade, da nossa liberdade, do discernimento que fazemos das diversas realidades que temos de enfrentar. Porque não vive a sua vida em relação com Deus, o homem decide-a como se Deus não tivesse nada a ver com ela. Podemos dizer que acreditamos em Deus, mas não estamos dispostos a viver com Ele em todos os momentos da nossa vida, escutando-O, contando com a força do Seu amor, louvando-O, procurando sintonizar a nossa vontade com a d’Ele.

É por isso que a conversão é, antes de mais, uma conversão a Deus e ao Seu Filho Jesus Cristo: “Convertei-vos ao Senhor vosso Deus”. Significa uma abertura do coração à presença e acção de Deus na nossa vida, que influencia tudo e marca um ritmo novo. É um caminho que supõe coragem e decisão, humildade e obediência ao Espírito, purificação da vontade e dos desejos, para que o principal desejo da nossa vida seja o desejo de Deus e do Seu amor.

Esta Quaresma é ocasião para, cada um de nós, avaliar a realidade do pecado na sua vida, e encetar o caminho da conversão, do regresso a Deus.

    A Fé

3. A fé é a atitude decisiva e constitutiva da existência cristã: quando ela falha ou enfraquece, tudo falha ou se relativiza. É uma atitude do coração, que envolve a inteligência e a vontade, que se abandona totalmente, na confiança, a Deus que Se nos manifestou. Foi por isso que, desde o início do cristianismo, homens e mulheres mudaram radicalmente a sua vida, deixaram tudo e seguiram Jesus.

No centro desta atitude está a presença irrecusável do Deus vivo, através do Seu Filho Jesus Cristo. Antes de ser um programa de vida, a fé é uma obediência de amor. “A Deus que Se nos revela é devida a obediência da fé”, diz o Concílio (cf. Dei Verbum, nº 5). A fé é a principal atitude que Deus nos pede e é, na sua génese, um acto de adoração de Deus.

Nesta Quaresma, devemos escutar o Senhor, e estar atentos aos meios pelos quais Ele normalmente se revela e nos manifesta a Sua vontade: a Palavra de Deus, a Liturgia, os acontecimentos da vida, sobretudo os relacionados com o sofrimento dos nossos irmãos.

Este ano está particularmente marcado por uma atenção particular à Palavra de Deus: um Sínodo sobre a Palavra, o Ano Paulino. As minhas Catequeses Quaresmais serão, este ano, sobre a Palavra de Deus. Lembro-vos aqui os temas, já anunciados:

    1º Domingo:                       O Verbo eterno e o silêncio de Deus

    2º Domingo:                        O Verbo eterno de Deus encarna na palavra humana: carisma profético

    3º Domingo:                       A Fé e a escuta da Palavra de Deus

    4º Domingo:                       A Escritura e a Igreja

    5º Domingo:                       A Palavra rezada

 Domingo de RamosEm Cristo o Logos eterno e a palavra profética                                             coincidem

Lembro que a Palavra da Escritura e a Palavra da Igreja são apenas meios, de certo modo sacramentais, que nos podem levar à escuta da Palavra do Deus vivo, o seu Verbo eterno. A falta da conversão do coração e a dispersão do momento podem impedir que a Palavra escutada ou proclamada não nos leve a escutar, na intimidade, a Palavra viva de Deus. Esta é sempre uma descoberta e uma surpresa, que nos mobiliza de novo para vivermos com Deus, em comunhão com Ele.

A Liturgia, a oração pessoal, a partilha fraterna, o empenho na evangelização, são circunstâncias que proporcionam uma nova escuta da Palavra de Deus. A fé é o quadro de todo este processo da escuta da Palavra de Deus. Como diz São Paulo, a salvação é um caminho que vai da fé à fé (cf. Rom. 1,16). Ela acompanhar-nos-á até ao limiar da eternidade, e inclui desde já a vivência da caridade e da esperança, atitudes constitutivas de um caminho de salvação. Como expressões da fé, elas são ainda “as primícias” de uma plenitude definitiva.

    A Caridade

4. Já vimos que a fé é, em si mesma, uma expressão da caridade enquanto acto de adoração e de louvor de Deus. Amar a Deus sobre todas as coisas e cada vez melhor, será exigência contínua da fé. Não há autêntica vida de fé sem adoração e louvor a Deus.

Mas a partir do amor de Deus, a fé abre-nos para o amor dos irmãos. Viver em Igreja é desafio de viver, com os irmãos, em comunhão de amor. Não se pode, com verdade, amar a Deus que não se vê, se não amarmos os irmãos que vemos e que Deus ama.

O Santo Padre convida-nos, nesta Quaresma, a concretizar este amor fraterno na “esmola” como partilha do que temos e somos. A “esmola” de quem pode partilhar, supõe a pobreza do coração para saber partilhar. Dar aos pobres só é expressão da caridade se tivermos “um coração de pobre”.

A nossa Diocese continuará a partilhar, através da “Renúncia Quaresmal”, com as Igrejas pobres que batem à nossa porta. Em documento anexo informamos a Diocese dos pedidos atendidos durante o ano de 2007. Outros vão chegando e começam a ser analisados.

Não os conhecemos, mas continuaremos a partilhar. O dar a quem não se conhece é expressão do silêncio que o Senhor aconselha a quem dá. Desses irmãos longínquos e desconhecidos, não estamos à espera de nada em troca. Mas isto não nos dispensa de estarmos atentos aos irmãos que vivem a nosso lado.

    A Esperança

5. O Santo Padre Bento XVI, na sua recente Encíclica “Spe Salvi”, mostrou-nos bem que a fé inclui a esperança, citando a Carta aos Hebreus: “A fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se vêem” (Heb. 11,1). A fé leva-nos a experimentar a comunhão com Deus e a perceber que só em Deus pode estar o nosso futuro. Aquilo que experimentamos é aquilo que esperamos em plenitude.

A fé purifica os nossos desejos, de vida, de felicidade, arranca-os ao horizonte fechado das coisas terrestres. Quando sentimos que o nosso futuro só pode estar na comunhão com Deus, alargamos o horizonte dos nossos desejos para além deste mundo, para a vida eterna.

A Quaresma é tempo de análise da nossa esperança. Não estará o nosso coração demasiadamente fixado nos bens deste mundo? Acreditamos e desejamos a vida eterna? Só assim poderemos celebrar a Páscoa como a festa da vida, o abrir definitivo do horizonte da verdadeira esperança. A esperança limitada aos horizontes deste mundo não responde aos mais profundos anseios do coração humano. Se esperamos apenas os bens deste mundo não valia a pena Cristo ressuscitar e de nos ressuscitar com Ele.

 
Lisboa, 2 de Fevereiro de 2008, Festa da Apresentação do Senhor.
 
JOSÉ, Cardeal-Patriarca


in www.patriarcado-lisboa.pt